Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [may the 4th]

    [may the 4th]

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    resolvi vestir a imaginação com sabre de luz
    e brincar com a força do seu coração
    may the force be my song
    entre batidas e pulsos
    soluços e sustos
    olhei pela fresta
    e vi um vão

    resolvi atravessar a fronteira
    da segunda-feira faceira
    parecia besteira
    mas não era não

    vi o mundo
    — por um segundo torto —
    entre um passo e outro
    mostrar seu avesso
    a t r a v e s s a d o
    enviesado
    quase marcado
    por intervalos
    irrisíveis
    quase tristes
    vieses em riste
    como se tudo que existisse
    fosse apenas
    um quase entendimento
    meio atrasado
    meio bonito
    meio bobo
    meio infinito
    may the forth
    seria sorte?

    sem protocolo, só verdade
    sem drama, só vontade
    de deixar acontecer
    e só depois a gente entender

    resolvi vestir a vida
    e despir a partida
    repartida entre planos insanos
    mais amplos
    mais difíceis de conter
    mais impossíveis de prever
    orbitando saberes
    e buscando mistérios
    que insistiam em me dar poderes
    may the force me traga recortes

    deixei a luz escorrer pelos dedos
    deixei a galáxia lançar seus fenômenos
    deixei o medo encostar na gente
    e o sol se fazer poente
    no meio da rua
    levando junto a ternura
    e a amargura
    enquanto a segunda-feira tansborda
    e inaugura
    uma nova sina
    que me destina
    me dobra
    me alcança
    me ensina

    may the forth
    play the force
    não me conforte
    take myself
    of course

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    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: foto-arte by Tina Teresa.

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  • [amargo]

    [amargo]

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    Amanheci com o amargo da tua língua nos meus ouvidos,
    guardando um eco que não pediu para ficar.

    Parecia lâmina fina, dessas que cortam sem anunciar o gesto.

    Pedra, papel, tesoura, manifesto.

    E eu, ainda meio sonho, meio carne,
    tentei decifrar o gosto:
    era despedida?
    era cansaço?
    ou só verdade dita sem cuidado,
    chegando crua,
    sem a delicadeza de um intervalo?

    A segunda-feira abriu mesmo assim,
    sem pedir licença,
    carregando nos bolsos
    restos de domingo,
    promessas mal dobradas,
    e uma coragem que ainda bocejava.

    Luz atravessando frestas,
    café tentando reorganizar o mundo,
    e eu aqui, recolhendo sílabas do chão,
    tentando decidir o que merecia ser levado
    e o que já podia, enfim, ser deixado.

    Não teve festa nem vela.
    Só um embrulho no meu peito,
    um verbo estreito,
    uma frase suspensa,
    metade sopro, metade verso,
    um quase que pesou mais
    que qualquer certeza inversa.

    E eu, entre linhas, li o que não disseste —
    e não foi adivinhação.
    Foi porque o silêncio, às vezes,
    grita com cirúrgica precisão.

    Se era jogo,
    foi lance sujo.
    Se era fuga,
    deixou rastro. Imundo.

    E agora,
    o que faço com esse
    pseudo intervalo
    que carrega mais verdade
    do que a própria palavra?

    A cidade acende em ritmo seco,
    o mundo volta a cobrar presença,
    e a gente… a gente costura o próprio começo
    com o fio que sobrou.

    Porque a segunda não pergunta.
    Convoca.

    Oh, glória!
    Eu fiquei quando a frase
    terminou antes da hora.
    Eu ouvi o que vinha torto
    e ainda assim não virei o rosto.

    E agora,
    vivo assim, tentando de novo,
    não um recomeço grandioso,
    mas um passo firme,
    quase teimoso,
    decidindo existir
    mesmo com esse gosto amargo na memória.

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Angela Smyth Artist.

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  • [segunda, 20]

    [segunda, 20]

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    acordei confusa

    que dia é hoje, pensei

    que vela eu apago

    com afagos carentes

    diante desse dia incandescente

    que fardo eu largo

    diante das promessas

    apagadas na fogueira

    do fim da segunda-feira

    é dia vinte

    eu faço anos

    acordo tímida

    refaço planos

    peço pro calendário

    ceder espaço

    para meu próximo passo

    peço pra segunda-feira

    virar a página

    sem desculpas, sem amassos

    sem fama, sem asco

    reinventando o dicionário

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    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Selfie com efeito de IA.

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  • [repeteco]

    [repeteco]

    _

    de repente a fala

    é um eco que insiste em voltar

    uma engrenagem

    que tropeça ao girar

    um pequeno trote no verbo

    como se ele tivesse voltado

    alguns passos no tempo

    na virtude clara no meio da sala

    na segunda-feira que nunca acaba

    de repente a fala

    ora pesa, ora pulsa, ora cala

    quase sempre estala o mesmo nervo

    num jogo de espelhos

    cheio de quases

    que invadem

    as lembranças reeditadas

    como quem rebobina uma fita

    numa segunda-feira que grita

    de repente a memória

    retorna numa nova forma

    numa insistência insana

    em fazer sentido

    retórica

    anáfora

    pressão semântica

    eco eco eco eco

    percurso disfarçado

    curva endiabrada

    ruído que não cala

    sobra de fala

    paradoxo eloquente

    redundância efervescente

    necessidade latente

    de (re)contar tudo novamente

    de repente a nóia

    morde

    quando o pensamento tateia

    e o verbo pisa no chão inteiro

    quando o eco involuntário

    vira linguagem que encosta

    na borda

    quando a palavra toca

    a parede

    e volta

    reverberando

    sem pressa

    e a cada volta

    nada do que foi 

    fica igual ao que começou

    nem a segunda-feira

    que insiste em camadas

    nem o tempo

    que se inundou

    de ecos

    incertos

    pequenos repetecos

    no universo que afundou

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    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Nora Jesenski.

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  • [rebeldia]

    [rebeldia]

    _

    se estamos condenados à liberdade

    queria eu um desejo à parte

    talvez um verso

    que seja menos certeza

    e mais uma declaração de insanidade

    pois quando amamos

    alteramos probabilidades

    mudamos decisões

    retraçamos trajetórias

    trocamos olhares

    (re)definimos prioridades

    quando amamos,

    mudamos quem somos

    e quem somos muda o que sonhamos

    se estamos condenados à liberdade

    vivemos um mapa com margens de manobra

    um traço que volta e meia sai da borda

    em dias que a decisão vem torta

    como uma segunda-feira que brota

    como um começo que não colabora

    um desejo que nunca se esgota

    e então quase sem perceber

    a gente passa a caber

    num espaço que ainda não existia

    numa segunda-feira cheia de ironia

    entre cabelos em rebeldia

    e uma fenda aberta no instante

    entre o que se move e o que se torna

    entre o que ama

    e o que morre

    entre o futuro

    e um porre

    liberdade não socorre

    só escorre

    disforme

    dobrando corredores, portas, rotas

    moscas mortas

    ensinando num ensaio fino

    que desordem também é ritmo

    que linha reta

    é escolha ocasional

    segunda-feira

    eu me jogo ao seu sinal

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    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Acrylic Painting on Cardboard by @golsa.golchini.

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  • [março]

    [março]

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    esse mês de março mais parece

    um looping em escala cósmica

    ideias descontentes

    procurando forma

    esse mês de março reverbera

    reposiciona estrelas insistentes

    num começo que já vem usado

    num meio com cara de início

    num compasso que não cede

    fazendo com o que o dia pese

    com que a noite se demore

    com que o mapa estremeça

    e a segunda-feira padeça

    esse mês de março se expande

    se contrai e se repete

    parece que nada muda

    e, ainda assim, tudo acontece

    então vai — (embora)

    sem cerimônia

    sem anúncio

    um segundo

    entre o impulso e o gesto

    que não anda em linha reta

    mas você atravessa

    mais um março

    mais um pós-carnaval sem fiasco

    ou com

    sem sobra sem casco

    sem águas (ainda?) sem chão

    acaba o ano e ainda é março

    talvez pra sempre será verão

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    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Abstract Portrait 🌺 by @illiaphotography.

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  • [tristezas de estimação]

    [tristezas de estimação]

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    você tava cabisbaixo

    quando eu cheguei

    você nem percebeu

    eu só me encostei

    você logo adormeceu

    parecia amor

    parecia nostalgia

    mas era dor

    disfarçada de afasia

    enquanto chovia

    você tava enjoado

    quando eu aprendi

    o caminho de casa

    e me hospedei no seu coração

    como item de coleção

    eu cheguei devagar, eu sei:

    um pensamento recorrente aqui

    uma memória revisitada ali

    uma segunda-feira atrasada

    uma camiseta rasgada

    uma angústia amassada

    buscando morada

    eu cheguei

    como quem não quer nada

    eu era só um “e se”

    que ganhou coleira e nome próprio

    e, quando você viu,

    eu já tinha lugar no seu sofá

    então você passou a me alimentar

    e a me chamar pro seu colo

    de dia, de noite, de madrugada

    debaixo das cobertas

    da segunda-feira abafada

    você me deu comida, carinho,

    um gole de vinho,

    um quê de afeto torto

    enquanto eu me criava

    e multiplicava suas dores

    num zoológico íntimo

    de tristezas de estimação

    eu me alojei no disco riscado

    que você escolheu ouvir

    virei lembrança de algo que não foi

    enquanto você gritava pra eu partir

    virei aquela saudade

    de uma versão sua devarde

    que ficou em algum lugar do passado

    numa segunda-feira mofada

    num domingo inacabado

    você me adotadou aos poucos

    primeiro, visita. depois, encosto.

    no infinito de um e de outro

    juntos, fizemos cafuné no tédio

    pensando que era remédio

    você me deixava solta no quarto

    fazendo bagunça na cama

    fazendo pirraça no armário

    enquanto você cantava pneu no asfalto

    tentando fugir

    do vitimismo

    do abismo

    do destino

    do roteiro que se repete

    do travesseiro inerte

    da segunda-feira em vão

    comigo, não

    comigo você inventa

    mais uma tristeza de estimação

    dormindo aos pés da sua rotina

    polindo suas dores

    refletidas na sua retina

    colecionando tombos, sapos, afagos

    desaprendendo o cuidado

    justificando maços e maços

    inventando hábitos

    vomitando hálitos

    e orando

    pra eu não virar acervo

    pra um dia, sem anúncio,

    eu esquecer seu endereço

    pra você fechar a porta devagar,

    com as mãos vazias pela primeira vez em anos

    e, no silêncio que ficar, ainda estranho,

    deixar-se dormir sobre seus próprios ombros

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: obras ‘tocando com o coração’, ‘sufocado na própria delicadeza’ e ‘coração, sem razão’ by Susano Correia para a linha Co_Folk da Folk Books.

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  • [Segunda-feira de cinzas]

    [Segunda-feira de cinzas]

    _

    Segunda-feira infinita

    lágrimas de purpurina

    passos de bailarina

    gargalhadas abafadas

    pela batida marcada

    sonhos rasgados no travesseiro

    coração pulsando no pandeiro

    música ardida, garganta ferida

    carnaval na avenida

    serpentina desmedida

    Segunda-feira de cinzas

    pó de festa no ralo do chuveiro

    palavras em órbitas distintas

    sem gravidade compartilhada

    partícula errante no meio da sala

    sem legenda, sem mensagem, sem fôlego

    na dobra do dia, na curva da noite

    (re)pousada no adeus,

    no depois, no breu

    no silêncio de Morfeu

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: “Mono no aware”, a digital illustration by FAYBEL @faybelarts.

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  • [mesmo]

    [mesmo]

    _

    mesmo

    que o mundo

    exploda

    atrás de nós

    mesmo

    que o céu

    despenque

    sobre nossas

    cabeças

    mesmo

    que o inferno

    impere

    e a treva

    prospere

    mesmo

    que a segunda-feira

    chegue

    sem aviso

    sem alarme

    nem alarde

    ainda assim

    rimos

    amamos

    e criamos

    o nosso destino

    a nossa tarde

    a nossa noite insone

    o nosso dia devarde

    mesmo que a vida

    nos julgue

    e o futuro promulgue

    ainda assim

    vibramos

    em Marte ou

    em Saturno

    nosso sonho soturno

    enquanto a areia arde

    e o mar invade

    tudo

    tudo

    tudo

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: ‘Willful Ignorance’ by Hajnalka Mayor.

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  • [distopia]

    [distopia]

    _

    melancolia

    segunda-feira vazia

    eu não merecia

    louça suja na pia

    cacos espalhadas no chão

    não se mova

    permita

    que a janela

    espalhe

    o luar

    por sua roupa

    deixe a sombra

    desocupar o lugar

    deixe a minha

    sina

    apaziguar seu chorar

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: pintura sobre madeira by Jessikha Clartin.

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  • [catavento]

    [catavento]

    _

    Cata
    Só por um momento
    Penso
    Em quase nada
    Enquanto cato tempo
    E ganho tempo
    Pra uma nova segunda-feira
    Que me cata
    E descarta
    Tampa o tempo
    Tanto tempo
    Vem por tanto
    Vento tanto
    Tento tanto
    Por tanto tempo

    ❝ by Tina Teresapanicmonday

  • [café]

    [café]

    _

    fiz um pequeno tratado sobre cair

    e ser amparada no que coube

    uma segunda-feira de camadas

    onde o amargo aprende a dançar com o doce

    pra semana começar

    com o café acordando a língua,

    pousando feito pó de pensamento

    em estado de abraço,

    feito laço,

    sem embaraço

    desacelerei o tempo

    com as mexidas da colher

    pra a pressa perder o fôlego

    e a segunda-feira

    ganhar cara de sobremesa,

    ocupando a mesa,

    esticando a conversa,

    espalhando migalhas de pausa

    no meio do dia,

    no meio da ceia,

    no meio do peito

    onde medos e sonhos

    seguem acordados, apertados,

    pedindo intervalo,

    pedindo colo

    e desejos novos

    por favor, me espere

    quando eu me demoro

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    **

    ★ ilustração deste poema: “the lucky break to make a wish” by @coco_woah

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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