★ ilustração deste poema: Parade to the Solstice – pintura em óleo de Emily Woodard com animação criada por Levan Kvan sem uso de inteligência artificial.
não sei porque você insiste em se mover pra frente dos meus dias me deixando vazia enquanto a segunda-feira arrepia
não sei porque você insiste em só querer a segurança do padrão à beleza do avesso sem apreço mereço?
não sei porque você escolhe permanecer no mesmo passo decorado no mesmo chão já mapeado no mesmo roteiro cansado
não sei porque você insiste em repousar firme no mesmo lugar como se mudar de ideia fosse pior que tombar
como se o erro fosse queda e não movimento como se a coragem exigisse certeza e consentimento
não sei porque você insiste em proteger promessas que nunca cumpriu medos que o tempo já viu retratos que o futuro despiu
não sei porque você passa os dias a dizer por aqui não por ali sem nunca querer saber o que mora depois dali
não sei porque você insiste em ser cone quando a vida pede curva e cada segunda-feira nasce pra romper a paisagem turva
não sei porque você insiste em conter tudo aquilo que transborda tudo aquilo que se move tudo aquilo que descobre que outro caminho resolve
eu olho a segunda-feira e vejo uma porta entreaberta você olha a segunda-feira e confere se a fechadura está certa
talvez por isso eu procure a vertigem do começo e você a repetição do endereço eu a beleza do avesso você o conforto do regresso cego tudo tem um preço
laranja de vocação sentinela da repetição fiscal de imaginação plantado sobre o asfalto esperando o próximo empurrão ou que a próxima segunda-feira abra frestas na avenida embaralhe as faixas contrarie o mapa brinque com a despedida em favor da vida
A segunda-feira carrega um mistério discreto. Nunca chega completamente vazia. Nunca revela todos os seus compartimentos secretos.
Traz nos bolsos restos de sonhos, planos adiados, conversas interrompidas, amores perdidos, cafés por tomar e páginas divididas.
Chega carregando vestígios.
De ontem. De antes. De longe.
Feito poeira de estrela com o hábito de aparecer nos lugares mais improváveis.
Numa ideia que volta. Num encontro desmarcado. Numa página em branco. Numa qualquer-feira sem sal.
Pequenos fragmentos à deriva.
Nem tudo pede resposta.
Nem tudo procura destino.
A segunda-feira chega.
Só isso.
Na caneca com um gole esquecido de domingo. No mensagem não respondida. No bolso do casaco, num papel dobrado em quatro.
Partículas de lugares distantes. Fragmentos de histórias antigas.
A segunda-feira chega.
Uma ideia reaparece. Uma lembrança muda de endereço. Uma frase espera o momento certo para pousar.
Porque nem todo recomeço precisa de anúncio. Nem toda esperança precisa de discurso. Há momentos em que basta chegar.
A segunda-feira sabe disso.
Chega com seus bolsos cheios de pequenas tentativas, de coragem ainda amassada, de vontades que sobreviveram ao cansaço. Chega feita da mesma matéria dos sonhos que insistem, das histórias que continuam e das estrelas que, mesmo distantes, seguem deixando rastros.
A segunda-feira faz algo curioso com os dias. Recolhe fragmentos da semana que passou e os reorganiza em novas possibilidades.
Segunda-feira acordou vazia
Sem presença, sem sentença
Mas cheia de memórias
Cheia de bom-dias
Ontem foi um dia a mais
Hoje é mais um dia a menos
Quando menos é mais
Um pouco mais nunca é de menos
Um pouco de história nunca é demais
E um futuro incerto nunca é de menos
Será que passa o tempo mais rápido
Se eu esquecer de acordar?
Será que um lance de uma noite
Vai nos levar a algum lugar?
Só mais um pouco
Soluço rouco
Falta muito?
É coisa de louco
Sim, um pouco mais
Um dia a mais, uma vida a mais
Dia menos dia
É pura fantasia
Logo menos, nunca mais
Logo, logo, muito mais
Seremos nós daqui pra frente?
Logo mais nunca é demais
Deixa ser surpreendente
Deixa ser muito mais
Quanto mais dias a menos
Mais dias pra muito mais
Mais boas-noites pra novos dias
Mais bom-dias pra outras noites a mais
Pode o coração mudar de lugar? Depois do sol, depois da chuva, do primeiro olhar, do primeiro beijo… Pode o coração mudar de lugar? Eu sei, não era pra divagar sobre apertos no peito, mas seu olhar cor de champagne todos os dias pela manhã todas às segundas… devagar segunda-feira a divagar você joga a pergunta no ar: pode o coração mudar de lugar?
Depois de um carinho altruísta, depois de uma rasteira egoísta, depois de o outono chegar…
Não me diga que é mentira, essa tua fala vazia esconde uma melodia.
E as asas prateadas camufladas no sótão daquela casa abandonada? Eu vi. Teu olhar arrefecido e vermelho Teu olhar seguiu meu rasante e tuas asas brilharam. E meu coração mudou de lugar. Passou a bater descompassado, queria fugir, virar faísca, nunca mais vislumbrar.
Isso sim parece mentira. Mas se eu acredito no faz-de-conta, do not panic, it’s organic! Não chore, foi apenas um pesadelo.
Pode uma mesma casa reunir tantas entradas? Enquanto uma passagem serve de lar seu olhar cor de champagne no degrau da escada a descansar, outra paisagem esquece as correspondências no chão por dias e as folhas das revistas que alguém um dia assinou entortam-se e colecionam serenos.
Não me destile teu veneno porque eu passei e você não me seguiu. Nem meu cheiro você sentiu.
Mas a faísca… Ah, a faísca você viu. Só que você não vai me encontrar…
Porque meu coração mudou de lugar. Ele está onde você menos imagina, não o procure na esquina dos meus sonhos… Lá, sabe o que você pode achar?
resolvi vestir a imaginação com sabre de luz e brincar com a força do seu coração may the force be my song entre batidas e pulsos soluços e sustos olhei pela fresta e vi um vão
resolvi atravessar a fronteira da segunda-feira faceira parecia besteira mas não era não
vi o mundo — por um segundo torto — entre um passo e outro mostrar seu avesso a t r a v e s s a d o enviesado quase marcado por intervalos irrisíveis quase tristes vieses em riste como se tudo que existisse fosse apenas um quase entendimento meio atrasado meio bonito meio bobo meio infinito may the forth seria sorte?
sem protocolo, só verdade sem drama, só vontade de deixar acontecer e só depois a gente entender
resolvi vestir a vida e despir a partida repartida entre planos insanos mais amplos mais difíceis de conter mais impossíveis de prever orbitando saberes e buscando mistérios que insistiam em me dar poderes may the force me traga recortes
deixei a luz escorrer pelos dedos deixei a galáxia lançar seus fenômenos deixei o medo encostar na gente e o sol se fazer poente no meio da rua levando junto a ternura e a amargura enquanto a segunda-feira tansborda e inaugura uma nova sina que me destina me dobra me alcança me ensina
may the forth play the force não me conforte take myself of course
Amanheci com o amargo da tua língua nos meus ouvidos, guardando um eco que não pediu para ficar.
Parecia lâmina fina, dessas que cortam sem anunciar o gesto.
Pedra, papel, tesoura, manifesto.
E eu, ainda meio sonho, meio carne, tentei decifrar o gosto: era despedida? era cansaço? ou só verdade dita sem cuidado, chegando crua, sem a delicadeza de um intervalo?
A segunda-feira abriu mesmo assim, sem pedir licença, carregando nos bolsos restos de domingo, promessas mal dobradas, e uma coragem que ainda bocejava.
Luz atravessando frestas, café tentando reorganizar o mundo, e eu aqui, recolhendo sílabas do chão, tentando decidir o que merecia ser levado e o que já podia, enfim, ser deixado.
Não teve festa nem vela. Só um embrulho no meu peito, um verbo estreito, uma frase suspensa, metade sopro, metade verso, um quase que pesou mais que qualquer certeza inversa.
E eu, entre linhas, li o que não disseste — e não foi adivinhação. Foi porque o silêncio, às vezes, grita com cirúrgica precisão.
Se era jogo, foi lance sujo. Se era fuga, deixou rastro. Imundo.
E agora, o que faço com esse pseudo intervalo que carrega mais verdade do que a própria palavra?
A cidade acende em ritmo seco, o mundo volta a cobrar presença, e a gente… a gente costura o próprio começo com o fio que sobrou.
Porque a segunda não pergunta. Convoca.
Oh, glória! Eu fiquei quando a frase terminou antes da hora. Eu ouvi o que vinha torto e ainda assim não virei o rosto.
E agora, vivo assim, tentando de novo, não um recomeço grandioso, mas um passo firme, quase teimoso, decidindo existir mesmo com esse gosto amargo na memória.
Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.