Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [gole ou golpe]

    [gole ou golpe]

    __

    tua festa começou quando

    o jogo acabou

    porque perder, pra você

    era o começo de um tropeço

    ou uma trapaça

    que ultrapassava a minha vidraça

    a segunda-feira raiava e você gritava

    tive que me entorpecer

    para que o mundo baixasse o volume

    a lucidez estava fazendo barulho demais

    a insensatez estava a um gole

    de distância da tua ganância

    buzina

    sinuca

    música ruim

    ninguém percebia

    que o dia iria

    começar cansado

    copos

    cacos

    cascos

    casacos jogados

    o resto

    eu já não sei

    se aconteceu

    ou fermentou

    se foi gole ou golpe

    se foi gol

    ou apenas falta de sorte

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Sculptor Frank Benson @frankbenson.info – image courtesy The Metropolitan Museum of Art.

    **

  • [ímpar]

    [ímpar]

    __

    número ímpar me instiga

    não sei se por carência,

    independência

    ou talvez até ausência

    ímpar parece que repousa

    parede

    memória

    lousa

    segunda-feira

    asa de mariposa

    ímpar parece que insiste

    busca triste

    caminho torto

    garoa fina

    arrepia

    cabelo de menina

    sina

    retina

    comemoramos anos

    traçamos planos

    fazemos conta

    novos rumos

    novas plantas

    latidos

    miados

    perdidos

    achados

    obrigado

    de nada

    lado a lado

    me perdi nos teus braços

    talvez o ímpar nunca fosse um número

    mas o espaço antes do encontro

    nosso ponto

    escorreguei para dentro

    do resto do seu mundo

    profundo

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Pencil drawings by Chinese illustrator Gong Chen.

    **

  • [meio amargo]

    [meio amargo]

    __

    você organiza o caos em gavetas rotuladas

    mas o caos aprende a sair pelas frestas

    junto com seu café meio amargo

    seu chocolate meio amargo

    seu bom dia meio amargo

    seu humor ácido

    meu banho meio amargo

    nada prático

    apático

    redundante

    metódico

    pesado

    tentando domesticar o dia

    com listas que não respiram

    e prioridades que não se olham nos olhos

    em busca de uma segunda-feira perdida

    eu já não me perco mais no seu relógio de ponteiros retos

    que insiste em marcar horas que não chegam

    repetindo o seu o excesso de simetria

    eu já não viro página para caber no seu índice

    na geometria cansada do seu jeito de insistir

    criando notas de rodapé que você chama de afeto

    há uma beleza torta no que você desmonta

    enxugando gelo com a toalha pronta

    que decora a poltrona tonta da sala de estar

    e ainda assim

    eu sigo aqui

    sem retrucar

    sem concordar com o eco

    sem afronta

    rindo por dentro

    e chorando pelo tempo

    meio amargo

    meio pardo

    letárgico

    que ainda bate

    sem compasso

    na memória que tenho

    das noites de sopa de aspargo

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: “The Weight of Thoughts” bronze sculpture by Thomas Lerooy.

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  • [solstício]

    [solstício]

    __

    na noite mais longa do ano

    acordei com medo da solidão

    como se a luz tivesse pedido demissão

    e me desse de presente

    uma segunda-feira de inanição

    o inverno chegou alongando sombras

    desenhando manobras tontas

    encurtando certezas

    e ampliando sutilezas

    reposicionando o sol

    dentro das coisas todas

    o inverno conhece o segredo do recomeço

    ele já viu folhas desistindo da altura

    enquanto raízes negociavam profundura

    já viu desejos trocando de endereço

    e a demora aperfeiçoando o avesso

    o inverno sabe que a aparência

    tem péssimos antecedentes…

    ele já viu o jardim parado

    e o mundo jurando abandono

    m e t a f o r i c a m e n t e

    ele sabe que sob a terra

    sementes rasgam certidões

    trocam sobrenomes

    abafam segundas-feiras

    e mudam direções

    um pássaro atravessa o frio

    carregando verão no peito

    uma árvore atravessa o frio

    carregando primavera nos ramos aflitos

    e eu atravesso o frio

    carregando perguntas poentes

    esperando a segunda-feira pendente

    enquanto isso, do meu jasmim,

    uma pétala cai

    depois outra

    depois outra

    como se alguém

    estivesse lentamente

    apagando a pressa

    com uma borracha perfumada

    até que reste apenas

    o aroma

    e a demora

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Parade to the Solstice – pintura em óleo de Emily Woodard com animação criada por Levan Kvan sem uso de inteligência artificial.

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  • [cone]

    [cone]

    __

    não sei porque
    você insiste em se mover
    pra frente dos meus dias
    me deixando vazia
    enquanto a segunda-feira arrepia

    não sei porque
    você insiste em só querer
    a segurança do padrão
    à beleza do avesso
    sem apreço
    mereço?

    não sei porque
    você escolhe permanecer
    no mesmo passo decorado
    no mesmo chão já mapeado
    no mesmo roteiro cansado

    não sei porque
    você insiste em repousar
    firme no mesmo lugar
    como se mudar de ideia
    fosse pior que tombar

    como se o erro fosse queda
    e não movimento
    como se a coragem exigisse
    certeza e consentimento

    não sei porque
    você insiste em proteger
    promessas que nunca cumpriu
    medos que o tempo já viu
    retratos que o futuro despiu

    não sei porque
    você passa os dias a dizer
    por aqui
    não por ali
    sem nunca querer saber
    o que mora depois dali

    não sei porque
    você insiste em ser cone
    quando a vida pede curva
    e cada segunda-feira nasce
    pra romper a paisagem turva

    não sei porque
    você insiste em conter
    tudo aquilo que transborda
    tudo aquilo que se move
    tudo aquilo que descobre
    que outro caminho resolve

    eu olho a segunda-feira
    e vejo uma porta entreaberta
    você olha a segunda-feira
    e confere se a fechadura está certa

    talvez por isso
    eu procure a vertigem do começo
    e você a repetição do endereço
    eu a beleza do avesso
    você o conforto do regresso
    cego
    tudo tem um preço

    laranja de vocação
    sentinela da repetição
    fiscal de imaginação
    plantado sobre o asfalto
    esperando o próximo empurrão
    ou que a próxima segunda-feira
    abra frestas na avenida
    embaralhe as faixas
    contrarie o mapa
    brinque com a despedida
    em favor da vida

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: CONES, 2024. Imagem © Grégoire d’Ablon, cortesia da artista Pia Hinz, que recria ferramentas industriais em delicados objetos de vitral.

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  • [vestígios]

    [vestígios]

    __

    A segunda-feira carrega um mistério discreto. Nunca chega completamente vazia. Nunca revela todos os seus compartimentos secretos.

    Traz nos bolsos restos de sonhos, planos adiados, conversas interrompidas, amores perdidos, cafés por tomar e páginas divididas.

    Chega carregando vestígios.

    De ontem.
    De antes.
    De longe.

    Feito poeira de estrela com o hábito de aparecer nos lugares mais improváveis.

    Numa ideia que volta. Num encontro desmarcado. Numa página em branco. Numa qualquer-feira sem sal.

    Pequenos fragmentos à deriva.

    Nem tudo pede resposta.

    Nem tudo procura destino.

    A segunda-feira chega.

    Só isso.

    Na caneca com um gole esquecido de domingo. No mensagem não respondida. No bolso do casaco, num papel dobrado em quatro.

    Partículas de lugares distantes.
    Fragmentos de histórias antigas.

    A segunda-feira chega.

    Uma ideia reaparece.
    Uma lembrança muda de endereço.
    Uma frase espera o momento certo para pousar.

    Porque nem todo recomeço precisa de anúncio. Nem toda esperança precisa de discurso. Há momentos em que basta chegar.

    A segunda-feira sabe disso.

    Chega com seus bolsos cheios de pequenas tentativas, de coragem ainda amassada, de vontades que sobreviveram ao cansaço. Chega feita da mesma matéria dos sonhos que insistem, das histórias que continuam e das estrelas que, mesmo distantes, seguem deixando rastros.

    A segunda-feira faz algo curioso com os dias. Recolhe fragmentos da semana que passou e os reorganiza em novas possibilidades.

    A segunda-feira às vezes demora, mas chega.

    Só isso.

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Rob Rey’s ‘Stardust VI’, Oil, 16x20in.

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  • [nona]

    [nona]

    __ 

    algumas lembranças florescem antes da primavera

    você é uma delas

    no jasmim

    na camélia

    na janela da memória

    nos acordes de Beethoven

    nos cheiros que nos movem

    vindos do forno ou do colo

    do choro ou da chama

    da cuca de banana

    nas artes que nos tocam o coração

    na canela no chá

    nos crochês no sofá

    o seu nome na sinfonia

    me desafia

    me instiga

    me acalma

    me irradia

    me encanta

    uma semente

    um suspiro

    um instante de confiança

    o resto pertence ao vento

    o dente-de-leão conhece o valor do desprendimento

    ele sabe que nem toda distância é perda

    pode ser destino

    caminho

    ou desatino

    pode ser lembrança

    a segunda-feira dança

    com pétalas de criança

    e eu permaneço aqui

    entre carências e dormências

    entre medo e saudade

    entre tempo e vontade

    dançando bonito

    enquanto sua alma debuta

    em outra estação do infinito

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: ‘The Quiet Hours’ by Inge Schuster.

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  • [dia da toalha]

    [dia da toalha]

    __

    há quem carregue um poema decorado
    desde a adolescência

    há quem saiba de cor
    o nome de luas distantes

    há quem monte cidades inteiras
    sobre mesas de jantar

    há quem colecione histórias

    há quem colecione perguntas

    quarenta e duas
    ou quarenta e três
    ou nenhuma

    há quem encontre abrigo
    em páginas amareladas

    há quem encontre companhia
    entre personagens improváveis

    há quem desenhe dragões
    na margem do caderno

    ou estrelas
    ou centelhas
    ou nada

    há vogons por toda parte

    alguns escrevem decretos
    outros, comentários

    alguns medem a vida
    com réguas de normalidade

    e distribuem formulários
    para quem ousa sonhar fora da margem

    o fascínio ocupa espaço

    a curiosidade ocupa espaço

    a imaginação ocupa espaço

    a segunda-feira ocupa espaço

    e cada pessoa organiza
    sua pequena coleção de encantamentos

    um livro guardado na mochila

    uma nave espacial na estante

    um verso anotado às pressas

    coisas que acompanham caminhos

    coisas que ajudam a reconhecer
    a própria voz

    existem muitas maneiras
    de habitar o mundo

    e todas elas acrescentam
    novas estrelas ao mapa

    há quem levante uma bandeira

    há quem atire a primeira pedra

    há quem ame a segunda-feira

    há quem odeie qualquer feira

    qualquer feito

    qualquer causa

    há quem carregue uma toalha

    um lembrete de que existe uma coragem rara

    de permanecer inteira
    num planeta que insiste alheio
    em versões resumidas de quem somos

    vamos dar um passeio?

    __

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: arquivo pessoal; Marvin em crochê by @crochetbybet.

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  • [Mais um dia a menos]

    [Mais um dia a menos]

    Segunda-feira acordou vazia
    Sem presença, sem sentença
    Mas cheia de memórias
    Cheia de bom-dias

    Ontem foi um dia a mais
    Hoje é mais um dia a menos
    Quando menos é mais
    Um pouco mais nunca é de menos
    Um pouco de história nunca é demais
    E um futuro incerto nunca é de menos

    Será que passa o tempo mais rápido
    Se eu esquecer de acordar?
    Será que um lance de uma noite
    Vai nos levar a algum lugar?

    Só mais um pouco
    Soluço rouco
    Falta muito?
    É coisa de louco

    Sim, um pouco mais
    Um dia a mais, uma vida a mais
    Dia menos dia
    É pura fantasia

    Logo menos, nunca mais
    Logo, logo, muito mais
    Seremos nós daqui pra frente?
    Logo mais nunca é demais
    Deixa ser surpreendente
    Deixa ser muito mais

    Quanto mais dias a menos
    Mais dias pra muito mais
    Mais boas-noites pra novos dias
    Mais bom-dias pra outras noites a mais


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: “Huger White” by Fernando Filho .

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  • [Fragmentos]

    [Fragmentos]

    Pode o coração mudar de lugar?
    Depois do sol, depois da chuva,
    do primeiro olhar, do primeiro beijo… 
    Pode o coração mudar de lugar?
    Eu sei, não era pra divagar
    sobre apertos no peito,
    mas seu olhar cor de champagne
    todos os dias pela manhã
    todas às segundas… devagar
    segunda-feira a divagar
    você joga a pergunta no ar:
    pode o coração mudar de lugar? 

    Depois de um carinho altruísta,
    depois de uma rasteira egoísta,
    depois de o outono chegar… 

    Não me diga que é mentira,
    essa tua fala vazia
    esconde uma melodia. 

    E as asas prateadas
    camufladas no sótão
    daquela casa abandonada?
    Eu vi.
    Teu olhar arrefecido e vermelho
    Teu olhar seguiu meu rasante
    e tuas asas brilharam.
    E meu coração mudou de lugar. 
    Passou a bater descompassado, 
    queria fugir, virar faísca, 
    nunca mais vislumbrar. 

    Isso sim parece mentira.
    Mas se eu acredito no faz-de-conta,
    do not panic, it’s organic!
    Não chore, foi apenas um pesadelo. 

    Pode uma mesma casa
    reunir tantas entradas?
    Enquanto uma passagem serve de lar
    seu olhar cor de champagne
    no degrau da escada a descansar,
    outra paisagem esquece
    as correspondências no chão
    por dias
    e as folhas das revistas
    que alguém um dia assinou
    entortam-se e colecionam serenos. 

    Não me destile teu veneno
    porque eu passei e você não me seguiu.
    Nem meu cheiro você sentiu. 

    Mas a faísca…
    Ah, a faísca você viu.
    Só que você não vai me encontrar…

    Porque meu coração mudou de lugar.
    Ele está onde você menos imagina,
    não o procure na esquina
    dos meus sonhos…
    Lá, sabe o que você pode achar?

    Fragmentos de paisagem.

    Liberdade.

    Decolagem.


    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: foto de arquivo pessoal.

    **

  • [may the 4th]

    [may the 4th]

    _

    resolvi vestir a imaginação com sabre de luz
    e brincar com a força do seu coração
    may the force be my song
    entre batidas e pulsos
    soluços e sustos
    olhei pela fresta
    e vi um vão

    resolvi atravessar a fronteira
    da segunda-feira faceira
    parecia besteira
    mas não era não

    vi o mundo
    — por um segundo torto —
    entre um passo e outro
    mostrar seu avesso
    a t r a v e s s a d o
    enviesado
    quase marcado
    por intervalos
    irrisíveis
    quase tristes
    vieses em riste
    como se tudo que existisse
    fosse apenas
    um quase entendimento
    meio atrasado
    meio bonito
    meio bobo
    meio infinito
    may the forth
    seria sorte?

    sem protocolo, só verdade
    sem drama, só vontade
    de deixar acontecer
    e só depois a gente entender

    resolvi vestir a vida
    e despir a partida
    repartida entre planos insanos
    mais amplos
    mais difíceis de conter
    mais impossíveis de prever
    orbitando saberes
    e buscando mistérios
    que insistiam em me dar poderes
    may the force me traga recortes

    deixei a luz escorrer pelos dedos
    deixei a galáxia lançar seus fenômenos
    deixei o medo encostar na gente
    e o sol se fazer poente
    no meio da rua
    levando junto a ternura
    e a amargura
    enquanto a segunda-feira tansborda
    e inaugura
    uma nova sina
    que me destina
    me dobra
    me alcança
    me ensina

    may the forth
    play the force
    não me conforte
    take myself
    of course

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: foto-arte by Tina Teresa.

    **

  • [amargo]

    [amargo]

    _

    Amanheci com o amargo da tua língua nos meus ouvidos,
    guardando um eco que não pediu para ficar.

    Parecia lâmina fina, dessas que cortam sem anunciar o gesto.

    Pedra, papel, tesoura, manifesto.

    E eu, ainda meio sonho, meio carne,
    tentei decifrar o gosto:
    era despedida?
    era cansaço?
    ou só verdade dita sem cuidado,
    chegando crua,
    sem a delicadeza de um intervalo?

    A segunda-feira abriu mesmo assim,
    sem pedir licença,
    carregando nos bolsos
    restos de domingo,
    promessas mal dobradas,
    e uma coragem que ainda bocejava.

    Luz atravessando frestas,
    café tentando reorganizar o mundo,
    e eu aqui, recolhendo sílabas do chão,
    tentando decidir o que merecia ser levado
    e o que já podia, enfim, ser deixado.

    Não teve festa nem vela.
    Só um embrulho no meu peito,
    um verbo estreito,
    uma frase suspensa,
    metade sopro, metade verso,
    um quase que pesou mais
    que qualquer certeza inversa.

    E eu, entre linhas, li o que não disseste —
    e não foi adivinhação.
    Foi porque o silêncio, às vezes,
    grita com cirúrgica precisão.

    Se era jogo,
    foi lance sujo.
    Se era fuga,
    deixou rastro. Imundo.

    E agora,
    o que faço com esse
    pseudo intervalo
    que carrega mais verdade
    do que a própria palavra?

    A cidade acende em ritmo seco,
    o mundo volta a cobrar presença,
    e a gente… a gente costura o próprio começo
    com o fio que sobrou.

    Porque a segunda não pergunta.
    Convoca.

    Oh, glória!
    Eu fiquei quando a frase
    terminou antes da hora.
    Eu ouvi o que vinha torto
    e ainda assim não virei o rosto.

    E agora,
    vivo assim, tentando de novo,
    não um recomeço grandioso,
    mas um passo firme,
    quase teimoso,
    decidindo existir
    mesmo com esse gosto amargo na memória.

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Angela Smyth Artist.

    **

[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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