★ ilustração deste poema: obras ‘tocando com o coração’, ‘sufocado na própria delicadeza’ e ‘coração, sem razão’ by Susano Correiapara a linha Co_Folk da Folk Books.
Cata Só por um momento Penso Em quase nada Enquanto cato tempo E ganho tempo Pra uma nova segunda-feira Que me cata E descarta Tampa o tempo Tanto tempo Vem por tanto Vento tanto Tento tanto Por tanto tempo
Eu quero muito. E isso me move. Entendo que nem todo querer é viável. Entendo que a gente se acostuma e o querer se transforma numa utopia, num sonho inatingível, num amor platônico que paira numa realidade inventada.
Mas continuo querendo. Mesmo sabendo que nem todo o ter traz felicidade, que nem todo o ter é pra ser, que querer demais pode desequilibrar, desestabilizar, desconcertar.
Talvez coisas, pessoas ou momentos também tenham seus próprios tempos, suas próprias segundas-feiras… e cruzar nosso caminho seja escolha alheia e não nossa. Decisão comedida de um fragmento de vida que dura o que tem que durar e perdura no que fica, seja memória ou saudade, experiência ou liberdade, aventura ou sinceridade.
Em verdade não temos nada. Breve efemeridade. Tempo a tempo. Cumplicidade. Porque a gente se acostuma, mesmo que seja a não se acomodar.
Mas quando vem a necessidade de pisar na embreagem, o pé esquerdo nem se dá conta, já que há tempos só descansa, não afronta. E a marcha não engata, a cabeça trava, o carro não anda, o mundo não gira, a gargalhada pira e o que um dia foi rotina precisa voltar à tona.
E eu continuo querendo. Mesmo que tropeçando, caindo, trottoando. Assumindo incertezas, aceitando ignorâncias, desejando novas conquistas, desenhando novos sonhos. Aprendendo e desaprendendo. Criando e desconstruindo. Chorando o risco de ver sumir no ar existências tão lindas.
Mesmo querendo sempre, a felicidade de viver esse tempo que é só meu me consome em caldas. Porque minha paz é inquieta e insegura mas me acalma, me transcende, me acende e, parece que não, mas me entende.
Numa certeza mansa, uma presença que encanta. Eu quero estar aqui. Cada vez mais. E isso é o máximo. É belo. É pleno. Sem veneno, só chocolate. Que derrete na boca, lambuza a roupa e brinca com minha vaidade.
★ ilustração deste poema: foto de família editada.
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[LIVRO]
versos de um réveillon sem fogos
Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.