Poemas contemporâneos sobre relacionamentos, escolhas de vida, comportamentos e aflições do cotidiano. 

  • [março]

    [março]

    _

    esse mês de março mais parece

    um looping em escala cósmica

    ideias descontentes

    procurando forma

    esse mês de março reverbera

    reposiciona estrelas insistentes

    num começo que já vem usado

    num meio com cara de início

    num compasso que não cede

    fazendo com o que o dia pese

    com que a noite se demore

    com que o mapa estremeça

    e a segunda-feira padeça

    esse mês de março se expande

    se contrai e se repete

    parece que nada muda

    e, ainda assim, tudo acontece

    então vai — (embora)

    sem cerimônia

    sem anúncio

    um segundo

    entre o impulso e o gesto

    que não anda em linha reta

    mas você atravessa

    mais um março

    mais um pós-carnaval sem fiasco

    ou com

    sem sobra sem casco

    sem águas (ainda?) sem chão

    acaba o ano e ainda é março

    talvez pra sempre será verão

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: Abstract Portrait 🌺 by @illiaphotography.

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  • [tristezas de estimação]

    [tristezas de estimação]

    _

    você tava cabisbaixo

    quando eu cheguei

    você nem percebeu

    eu só me encostei

    você logo adormeceu

    parecia amor

    parecia nostalgia

    mas era dor

    disfarçada de afasia

    enquanto chovia

    você tava enjoado

    quando eu aprendi

    o caminho de casa

    e me hospedei no seu coração

    como item de coleção

    eu cheguei devagar, eu sei:

    um pensamento recorrente aqui

    uma memória revisitada ali

    uma segunda-feira atrasada

    uma camiseta rasgada

    uma angústia amassada

    buscando morada

    eu cheguei

    como quem não quer nada

    eu era só um “e se”

    que ganhou coleira e nome próprio

    e, quando você viu,

    eu já tinha lugar no seu sofá

    então você passou a me alimentar

    e a me chamar pro seu colo

    de dia, de noite, de madrugada

    debaixo das cobertas

    da segunda-feira abafada

    você me deu comida, carinho,

    um gole de vinho,

    um quê de afeto torto

    enquanto eu me criava

    e multiplicava suas dores

    num zoológico íntimo

    de tristezas de estimação

    eu me alojei no disco riscado

    que você escolheu ouvir

    virei lembrança de algo que não foi

    enquanto você gritava pra eu partir

    virei aquela saudade

    de uma versão sua devarde

    que ficou em algum lugar do passado

    numa segunda-feira mofada

    num domingo inacabado

    você me adotadou aos poucos

    primeiro, visita. depois, encosto.

    no infinito de um e de outro

    juntos, fizemos cafuné no tédio

    pensando que era remédio

    você me deixava solta no quarto

    fazendo bagunça na cama

    fazendo pirraça no armário

    enquanto você cantava pneu no asfalto

    tentando fugir

    do vitimismo

    do abismo

    do destino

    do roteiro que se repete

    do travesseiro inerte

    da segunda-feira em vão

    comigo, não

    comigo você inventa

    mais uma tristeza de estimação

    dormindo aos pés da sua rotina

    polindo suas dores

    refletidas na sua retina

    colecionando tombos, sapos, afagos

    desaprendendo o cuidado

    justificando maços e maços

    inventando hábitos

    vomitando hálitos

    e orando

    pra eu não virar acervo

    pra um dia, sem anúncio,

    eu esquecer seu endereço

    pra você fechar a porta devagar,

    com as mãos vazias pela primeira vez em anos

    e, no silêncio que ficar, ainda estranho,

    deixar-se dormir sobre seus próprios ombros

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: obras ‘tocando com o coração’, ‘sufocado na própria delicadeza’ e ‘coração, sem razão’ by Susano Correia para a linha Co_Folk da Folk Books.

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  • [Segunda-feira de cinzas]

    [Segunda-feira de cinzas]

    _

    Segunda-feira infinita

    lágrimas de purpurina

    passos de bailarina

    gargalhadas abafadas

    pela batida marcada

    sonhos rasgados no travesseiro

    coração pulsando no pandeiro

    música ardida, garganta ferida

    carnaval na avenida

    serpentina desmedida

    Segunda-feira de cinzas

    pó de festa no ralo do chuveiro

    palavras em órbitas distintas

    sem gravidade compartilhada

    partícula errante no meio da sala

    sem legenda, sem mensagem, sem fôlego

    na dobra do dia, na curva da noite

    (re)pousada no adeus,

    no depois, no breu

    no silêncio de Morfeu

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: “Mono no aware”, a digital illustration by FAYBEL @faybelarts.

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  • [mesmo]

    [mesmo]

    _

    mesmo

    que o mundo

    exploda

    atrás de nós

    mesmo

    que o céu

    despenque

    sobre nossas

    cabeças

    mesmo

    que o inferno

    impere

    e a treva

    prospere

    mesmo

    que a segunda-feira

    chegue

    sem aviso

    sem alarme

    nem alarde

    ainda assim

    rimos

    amamos

    e criamos

    o nosso destino

    a nossa tarde

    a nossa noite insone

    o nosso dia devarde

    mesmo que a vida

    nos julgue

    e o futuro promulgue

    ainda assim

    vibramos

    em Marte ou

    em Saturno

    nosso sonho soturno

    enquanto a areia arde

    e o mar invade

    tudo

    tudo

    tudo

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    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: ‘Willful Ignorance’ by Hajnalka Mayor.

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  • [distopia]

    [distopia]

    _

    melancolia

    segunda-feira vazia

    eu não merecia

    louça suja na pia

    cacos espalhadas no chão

    não se mova

    permita

    que a janela

    espalhe

    o luar

    por sua roupa

    deixe a sombra

    desocupar o lugar

    deixe a minha

    sina

    apaziguar seu chorar

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: pintura sobre madeira by Jessikha Clartin.

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  • [catavento]

    [catavento]

    _

    Cata
    Só por um momento
    Penso
    Em quase nada
    Enquanto cato tempo
    E ganho tempo
    Pra uma nova segunda-feira
    Que me cata
    E descarta
    Tampa o tempo
    Tanto tempo
    Vem por tanto
    Vento tanto
    Tento tanto
    Por tanto tempo

    ❝ by Tina Teresapanicmonday

  • [café]

    [café]

    _

    fiz um pequeno tratado sobre cair

    e ser amparada no que coube

    uma segunda-feira de camadas

    onde o amargo aprende a dançar com o doce

    pra semana começar

    com o café acordando a língua,

    pousando feito pó de pensamento

    em estado de abraço,

    feito laço,

    sem embaraço

    desacelerei o tempo

    com as mexidas da colher

    pra a pressa perder o fôlego

    e a segunda-feira

    ganhar cara de sobremesa,

    ocupando a mesa,

    esticando a conversa,

    espalhando migalhas de pausa

    no meio do dia,

    no meio da ceia,

    no meio do peito

    onde medos e sonhos

    seguem acordados, apertados,

    pedindo intervalo,

    pedindo colo

    e desejos novos

    por favor, me espere

    quando eu me demoro

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

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    ★ ilustração deste poema: “the lucky break to make a wish” by @coco_woah

  • [Embreagem]

    [Embreagem]

    Eu quero muito. E isso me move.
    Entendo que nem todo querer é viável.
    Entendo que a gente se acostuma
    e o querer se transforma numa utopia,
    num sonho inatingível,
    num amor platônico
    que paira numa realidade inventada. 

    Mas continuo querendo.
    Mesmo sabendo
    que nem todo o ter traz felicidade,
    que nem todo o ter é pra ser,
    que querer demais pode desequilibrar,
    desestabilizar, desconcertar. 

    Talvez coisas, pessoas ou momentos
    também tenham seus próprios tempos,
    suas próprias segundas-feiras…
    e cruzar nosso caminho seja escolha alheia
    e não nossa.
    Decisão comedida
    de um fragmento de vida
    que dura o que tem que durar
    e perdura no que fica,
    seja memória ou saudade,
    experiência ou liberdade,
    aventura ou sinceridade. 

    Em verdade não temos nada.
    Breve efemeridade.
    Tempo a tempo. Cumplicidade.
     Porque a gente se acostuma,
    mesmo que seja a não se acomodar. 

    Mas quando vem a necessidade
    de pisar na embreagem,
    o pé esquerdo nem se dá conta,
    já que há tempos só descansa,
    não afronta.
    E a marcha não engata,
    a cabeça trava,
    o carro não anda,
    o mundo não gira,
    a gargalhada pira
    e o que um dia foi rotina
    precisa voltar à tona. 

    E eu continuo querendo.
    Mesmo que tropeçando,
    caindo, trottoando.
    Assumindo incertezas,
    aceitando ignorâncias,
    desejando novas conquistas,
    desenhando novos sonhos.
    Aprendendo e desaprendendo.
    Criando e desconstruindo.
    Chorando o risco de ver sumir no ar
    existências tão lindas. 

    Mesmo querendo sempre,
    a felicidade de viver esse tempo
    que é só meu me consome em caldas.
    Porque minha paz é inquieta e insegura
    mas me acalma,
    me transcende,
    me acende e,
    parece que não,
    mas me entende. 

    Numa certeza mansa,
    uma presença que encanta.
     Eu quero estar aqui.
    Cada vez mais.
    E isso é o máximo.
    É belo. É pleno.
    Sem veneno, só chocolate.
    Que derrete na boca,
    lambuza a roupa
    e brinca com minha vaidade.

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [Memórias]

    [Memórias]

    Tropecei na escada rolante das minhas memórias

    Era um trânsito de vontades que se esbarravam

    E não respeitavam o ir e vir das discórdias

    Diálogos de quereres em dias de glória
     
    Luta de antagonias que nos apoia em prosa

    E nos diverge em versos 

    Ventania passageira, ilusão rebordosa

    Tonteria em estágios diversos

    Era o mesmo filme passando

    A mesma cena entrando em colapso

    O mesmo tempo perdido que voltava chorando

    Memória em compasso 

    Filme de vida,
    lembrança tardia,
    desci o degrau em lapso 

    Transe transitório,
    tontos passos 
    segunda-feira ardida

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [Caos]

    [Caos]

    Se tua ordem

    Me chama

    É porque o caos

    Me derrama

    Em prantos

    Em cantos

    Enquanto

    Um universo inteiro

    Ganha morada

    Segunda-feira guardada

    Em meu canteiro

    De obras

    De sobras

    Desordem

    Estrelas explodem

    Decifra-me

    E me convida

    Pra ser sua rua

    Sua pele nua

    Sua namorada 

    _

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [Contentamento descontente]

    [Contentamento descontente]

    Contentamento descontente

    Cheiro de lua, cama nua

    Segunda-feira, pasta de dente 
    Serpente no canto da rua 

    Cabe mais um?

    Tempo quente, sorridente
    Talvez um gole de rum

    Aguardente, momento eloquente

    Filme, almofada, vigília estrelada
    Chove chuva transparente
    Tv, sofá, perna atravessada
    Incerteza dentro da gente 

    Doce tempero, café da manhã

    Calor decadente, frio caliente
    Da umidade, uma gota de maçã

    Enxergo sem ver o que paira na frente 

    Fatia no prato, vento no asfalto
    Velocidade apática, caminho lentamente
    Mais um pedaço de doce e fico no anonimato 
    Aqueça-me friamente 

    Só mais um beijo, um pão de queijo 
    Enquanto a textura esfola intimamente 
    Se temperatura fosse desejo 
    Amaríamos eternamente 

     –

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

  • [antes do chão]

    [antes do chão]

    _

    eu amo teu sorriso

    e até teu deboche

    quando diz “eu não preciso”

    eu amo teus olhos profundos

    e teu caminhar moribundo

    amo teu cheiro

    teu suspiro partido ao meio

    eu amo teu silêncio que se mexe

    quando o mundo encosta demais

    e tu finges distração

    amo teu atraso crônico

    para as certezas

    e essa pressa curiosa

    de viver agora

    amo teu jeito de ir

    sem sair do lugar

    de ficar

    sem se explicar

    de quase cair

    e ainda assim levantar

    te reconheço em mim

    no modo de respirar antes da fala,

    no tempo que segura o gesto

    sem travar o movimento,

    na pausa que se sustenta

    sem pedir tradução,

    no riso que acontece

    e segue

    te reconheço

    onde o passo aprende

    antes do chão,

    onde o tempo passa

    e pausa no meu coração

    atravessando a segunda-feira

    sem pedir licença

    ao calendário

    ou à contramão

    o passo segue

    e eu te amo

    entre cafés

    pensamentos

    parafusos

    ruas

    sou toda tua

    sempre

    mesmo sem lua

    entra ano, sai ano

    a vida passa

    a pele arde crua

    ❝ by Tina Teresa ♥ panicmonday

    ilustração deste poema: foto de família editada.

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[LIVRO]

versos de um réveillon sem fogos

Reúne fragmentos de dez anos de observação: o humor instável da segunda, o peso dos compromissos, o entusiasmo possível, as pequenas esperanças. É um livro feito de começos — não de finais.

Don’t miss out!
Faça da segunda-feira o seu réveillon semanal particular e recomece com poesia: receba os novos poemas do Panic Monday diretamente na sua caixa de entrada e descubra como um pouco de caos pode ser o início da sua melhor versão.
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